15 Expressões populares que devem sair do seu vocabulário JÁ! – Parte 2

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Continuando nosso assunto da semana passada 15 Expressões populares que devem sair do seu vocabulário JÁ! – Parte 1, vamos analisar mais algumas formas de falar que repetimos sem pensar em nosso dia a dia e que contribuem para a formação de uma cultura preconceituosa e discriminatória.

São elas:

 

  1. “Veadinho”

Conforme mencionado no item anterior, a masculinidade é algo que precisa ser constantemente reafirmado e provado, como sendo algo superior.

O termo “veadinho” é, infelizmente, extremamente comum no linguajar brasileiro e usado para depreciar homossexuais e/ou qualquer homem que apresente qualquer atributo próximo da feminilidade. O tom jocoso só demonstra como o feminino é visto como secundário. Tal expressão preconceituosa é permeada de machismo e homofobia.

  1. “Cabelo ruim”

Ruim é o seu preconceito. Não existe cabelo ruim. Existem cabelos lisos, cacheados, crespos, volumosos, loiros, pretos, ondulados, vermelhos. Mas não existe cabelo ruim.

O conceito de beleza, todos devem saber, é algo cultural e construído, então não ache que a sua opinião do que é bonito e feio é genuinamente sua. Questione! Se você tivesse nascido em outra época, acharia bonito ser gorda. Agora, o padrão de beleza é ser magra e atlética. Nos anos 80, não eram as chapinhas que dominavam, mas os permanentes.

Padrões sempre foram e ainda nos são impostos “goela abaixo”.

Não é coincidência que nosso conceito sobre o que é bonito seja o eurocêntrico, branco, loiro e de olhos azuis. Você foi ensinadx a não gostar de cabelos crespos e da pele escura. Você não consegue ver sua beleza porque está ocupadx demais sendo bombardeadx com as propagandas, novelas, filmes e revistas em que os protagonistas são brancos, de cabelo alinhado e olhos claros.

Cabelos crespos são lindos. Não são ruins. Ruim é reproduzir padrões preconceituosos, ofendendo e marginalizando pessoas, sem qualquer questionamento das suas próprias atitudes.

 

  1. “Negra bonita” / “Beijo gay” / “Lápis cor da pele”

Coloquei três expressões que aparentemente são bem diferentes em um mesmo tópico porque a origem delas é a mesma: considerar correto apenas um modelo.

Quando você elogia uma mulher branca, você diz “que branca bonita”? Por que, então, elogiar uma mulher negra com o adjetivo “negra” na frente, como se não fosse normal uma negra bonita ou como se ela fosse bonita “para uma negra”?

Você classifica um beijo entre pessoas de sexo oposto como “beijo hétero”? Um beijo é apenas um beijo. Uma demonstração de afeto entre duas pessoas e NADA difere um beijo entre heterossexuais de um beijo entre homossexuais.

Quanto à “cor da pele”, eu pergunto, pele de quem? Quantos tons de pele existem além do bege/rosado que chamam de “cor da pele”? Representatividade importa e para uma criança não é nem um pouco agradável que a sua cor de pele seja vista como fora do padrão, errada ou feia.

 

  1. “Mulher no volante, perigo constante” / “Que marido bom, ele ajuda nas tarefas”

Duas frases machistas e preconceituosas que naturalizam a ideia de que o lugar da mulher é em casa, fazendo as tarefas domésticas.

Por que desqualificar mulheres como motoristas se comprovadamente dirigem muito bem e têm um percentual de acidentes muito menor do que o dos homens? Existem mulheres que dirigem mal e que dirigem muito bem, assim como homens que dirigem bem e homens que dirigem muito mal. Isso não é uma questão de gênero!!

A liberdade feminina é algo que incomoda uma sociedade patriarcal.

Quanto à frase que diz que o homem bom é aquele que “ajuda” com as tarefas, temos duas problemáticas. Usar o termo ajudar, denota que o trabalho doméstico é responsabilidade somente da mulher e que o homem está fazendo um grande favor em ajudar. Não. As tarefas domésticas são de responsabilidade de ambos, portanto, um casal ou membros que compartilham uma casa, DIVIDEM tarefas, e não fazem mais do que sua obrigação.

O fato de as mulheres terem ganhado o mercado de trabalho, mas adquirido uma dupla jornada só as prejudica, fazendo com que sejam vistas como menos dedicadas pelos empregadores e, portanto, merecedoras de salários mais baixos.

Ou seja, basta um mínimo de reflexão para vermos que simples sentenças, tão inseridas em nossa cultura e criação, trazem graves consequências para todos.

 

  1. “Mulher pra casar” / “Está se fazendo de difícil” / “Mulher só é completa quando casa e tem filhos”

Bom, não é difícil ver o tamanho do machismo nessas frases quando trocamos o sujeito por um homem e elas parecem não soar mais tão normais. “Homem pra casar”, “Ele está se fazendo de difícil”, “Homem só é completo quando casa e tem filhos”.

Separar mulheres em categorias e classifica-las como “pra casar” é absurdo, arcaico e ofensivo. Primeiro, nem toda mulher quer casar, o que é absolutamente natural, e considerar isso como um ‘presente’ beira o ridículo. Segundo, tal rotulação serve apenas para podar a liberdade sexual feminina, considerando digna da companhia masculina somente aquelas recatadas, submissas e “puras”, ou seja, o contrário do que devem ser homens, que podem tudo para se divertir e provar sua masculinidade.

Daí vem a crença de que mulheres precisam “se fazer de difícil” para serem valorizadas. Não precisam. Às vezes elas simplesmente não querem nada com o cara, mas no imaginário masculino elas podem estar fazendo um jogo de sedução, o que resulta em um desrespeito da vontade feminina com uma insistência absurda por parte dos homens, que têm seu ego ferido quando rejeitados, por acreditarem justamente que eles são prêmios para as mulheres.

Acreditar que toda mulher está desesperada por um relacionamento e que tudo que ela faz é para conquistar um homem (como se um homem fosse um grande tesouro valioso), é triste. Mulher é completa em si mesma, não criemos nossas filhas somente para encontrarem um príncipe encantado, mas para serem protagonistas de suas vidas e, se quiserem, encontrar um companheiro que caminhe ao seu lado.

Impor que mulheres devam ter filhos e marido e dedicar suas vidas a isso é cruel. Tudo isso deve ser uma escolha, sem julgamentos do que é certo e errado.

As expressões citadas acima contribuem para uma cultura de desrespeito e de feroz julgamento para com as mulheres que não são tradicionais, além de naturalizarem crenças que fazem com que inconscientemente as pessoas tenham atitudes misóginas, preconceituosas e discriminatórias. Mulheres e homens têm iguais direitos de controle de suas vidas e não devem ser culpabilizados por suas escolhas pessoais.

A prática precisa mudar. A igualdade precisa sair do papel.

  1. “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”

Infelizmente a violência doméstica é muito presente em nossa sociedade. O ditado acima silencia esse crime. Não devemos ficar inertes, devemos sim “meter a colher”, denunciar o agressor e apoiar a vítima.

Muitas mulheres têm medo e vergonha ou simplesmente não têm forças pra saírem de situações de violência sozinhas. A intervenção de alguém querido é essencial. Não se pode achar normal que uma mulher seja submetida a qualquer tipo de tratamento degradante ou humilhante.

Vale lembrar que violência não é só física e que a culpa NUNCA é da vítima.

 

  1. “Você não parece gay”

Essa frase seria cômica se não fosse trágica. Qual é a aparência de uma pessoa gay?

Tal locução demonstra ignorância e reforço de estereótipos. Ser gay é apenas sentir atração física e afetiva por pessoas do mesmo sexo e isso não necessariamente influencia outros aspectos do seu ser, como o visual, o comportamento, o posicionamento, etc.

Generalizar um grupo de pessoas nada mais é do que: pré conceito!

 

  1. “Quem é o homem/mulher da relação?”

Essa é clássica, mas não menos pior. Assumir que deva existir o papel masculino e o feminino em um casal é reafirmar que relacionamentos precisam de um homem e de uma mulher. E não precisam!

Um casal de gays é formado por dois homens e ambos são homens! Um casal de lésbica é formado por duas mulheres e ambas são mulheres! Óbvio? Parece que nem tanto, pela sentença exposta acima.

Além do mais, tal informação diz respeito ao casal e à sua intimidade. Cada um vive da maneira que melhor lhe convier e não deve satisfação a ninguém.

Lembre sempre de tratar a todos de forma igualitária, com respeito e dignidade. O que você não gostaria de responder a estranhos, não pergunte! As pessoas não deixam de ser normais só porque são diferentes de você e não querem se sentir extraterrestres tendo de responder a curiosidades invasivas e excêntricas ou ter de conviver com comentários e suposições de suas vidas íntimas.

Simplesmente aceite que há diversas formas de viver, de se relacionar e de amar.

Se tiver uma dúvida relevante, sobre o que poderia ofender alguém, ou se quiser saber mais, de maneira respeitosa, sobre uma pessoa, pergunte! Uma dica: se quiser saber sobre racismo, pergunte a umx negrx; se quiser saber sobre machismo, pergunte a uma mulher; se quiser saber sobre LGBTIfobia, pergunte a uma pessoa LGBTI. Aceite e respeite suas respostas, pois só quem vive a discriminação todos os dias têm autoridade e legitimidade para considerar algo ofensivo ou não. Não te custa usar outras palavras ou expressões em prol do bem estar social, certo?

Uma sociedade evoluída e harmoniosa é aquela formada por indivíduos inteligentes e racionais e que se esforçam por um mundo melhor. Dedicar um tempinho para reflexão sobre as nossas atitudes agora, vai influenciar diretamente no ambiente em que nossos filhos viverão futuramente, de maneira muito mais fácil, visto que a preocupação com o bem-estar do próximo já estará naturalizada neles.

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Você acha que vale a pena? Está dispostx a começar a desafiar os padrões e eliminar preconceitos? Com certeza nossos descendentes terão orgulho de quem lutou por um mundo melhor e mais harmonioso com respeito e dignidade a todos os cidadãos.

Thaisa Hahnemann.